Caeleb Dressel rejeita ser novo Phelps mas mira Tóquio em 2020

3 anos ago 0

Caeleb Dressel chora após receber a medalha de ouro pela vitória no revezamento 4 x 100 m livre nos Jogos Olímpicos do Rio
Além da notável capacidade de avançar metros em poucos segundos sobre a água, Caeleb Remel Dressel, 21 anos, sempre chamou a atenção desde torneio juvenis devido a uma singularidade.
Advindo de família religiosa, acostumou-se a escrever em seu rosto passagens bíblicas com canetas marca-texto, daquelas usadas em livros escolares, antes das provas.
Para o velocista, os trechos da escritura conferiam força que nenhum treino era capaz de proporcionar.
De bermuda, touca e rabiscos na pele, provou que a sua inabalável fé teve êxito. Enfileirou recordes universitários pela Universidade da Flórida. Dois deles, 50 jardas (45,7 m) livre e nas 100 jardas (91,4m) eram de Cesar Cielo.
As indagações recaíam sobre se o prodígio de hábito peculiar repetiria o desempenho na elite internacional.
A primeira parte da resposta foi dada em 2016. Dressel classificou-se para disputar os 100 m livre e dois revezamentos nos Jogos do Rio, do qual saiu com dois ouros, ambos nas provas em equipe.
A segunda resposta foi dada em julho, em Budapeste (Hungria), no primeiro Mundial adulto de sua carreira.
Dressel não competiu com as passagens bíblicas no rosto. Em vez disso, preferiu ajoelhar perto do bloco de largada antes de cada prova e orar. O resultado foi o mesmo.
O velocista saiu do campeonato com sete medalhas de ouro, número igual ao recorde anterior de pódios estabelecido por Michael Phelps na edição de Melbourne-2007.
Foi campeão nos 50 m livre, 100 m livre, 100 m borboleta e os revezamentos 4 x 100 m livre, 4 x 100 m medley, e 4 x 100 m livre e 4 x 100 m medley misto –este último foi incluído no programa dos Jogos Olímpicos de Tóquio.
O desempenho suscitou comparações com o super astro, aposentado em 2016.
“Apesar das comparações com Michael, quero me concentrar em meu próprio caminho. Somos nadadores diferentes. É ótimo ser comparado a ele, mas não sou o nadador que ele foi, e acho que nunca serei”, afirmou Dressel, 21, em entrevista à Folha.
Como acontece na esteira do ocaso de grandes esportistas, a natação vive a ânsia para ver surgir alguém capaz de preencher a lacuna deixada por Phelps. Dressel prefere não ser alvo de especulação.
Em que pese o discurso discreto do velocista, ambos guardam semelhanças.
São altos (Phelps tem 1,93 m contra 1,91 m), versáteis e têm ótimo nado submerso.
Além disso, na capital húngara o jovem fez algo que nem o próprio Phelps realizou.
Em intervalo inferior a duas horas, levou três de seus ouros: 50 m livre, 100 m borboleta e 4 x 100 m livre misto.
Nas duas primeiras distâncias, fez as melhores marcas da história se desconsiderados os trajes de poliuretano proibidos após 2009 –21s15 e 49s86, respectivamente.
Também registrou tempos impressionantes nos 100 m livre, prova na qual foi campeão com sobras (47s17).
O tempos dão duas certezas: de que Dressel se põe em boa condição de bater os recordes mundiais das principais disputas de velocidade. Os dos 50 m e 100 m estão em poder de Cielo desde 2009.
E que possui artilharia para tentar uma façanha na próxima Olimpíada, em 2020.
O velocista pode vencer a até oito medalhas: 50 m, 100 m, 200 m livre; 100 m borboleta; e os revezamentos 4 x 100 m livre, medley e medley misto e o 4 x 200 m livre.
“Eu não quero estabelecer um número como meta para os Jogos Olímpicos três anos antes de eles acontecerem. Mas seria loucura dizer que não penso em conquistar um grande número de medalhas em Tóquio”, comentou.
Ele ressaltou, no entanto, que prefere dirigir seu foco para competições mais à vista, como os torneios universitários dos quais tem de participar e o Mundial de 2019, que será na Coreia do Sul.
“Se eu me obcecar com Tóquio não me concentrarei no mais importante, que são treinos, amadurecimento e evolução. Só assim terei chance de pensar nesse objetivo.”
No rosto ou em preces, ele sabe que terá a fé como aliada em sua caminhada.
‘MEDALHAS SÃO PEDAÇO DE METAL’
Embora seja apontado como protagonista da natação mundial neste ciclo olímpico, com capacidade de obter até oito medalhas nos Jogos de Tóquio, Caeleb Dressel adota um discurso que vai na contramão das expectativas.
“Não acho que a quantidade de medalhas será o que vai me definir. É apenas um pedaço de metal, eu acho. O que mais procuro é conhecer pessoas que me ajudarão a definir meu eu”, disse à Folha.
O que justifica o desapego do prodígio americano é sua trajetória. Dressel tem surfado na alta nos últimos dois anos, mas a natação já lhe rendeu períodos de baixa.
Entre o final de 2013 e início de 2014, ficou cinco meses longe do esporte porque não suportou a pressão.
“Eu aprendi a ter mais paciência, porque posso ser muito severo comigo. Quando fiz a pausa, queria reencontrar meu amor pelo esporte e consegui”, afirmou.
“A mídia e o público veem provas de 47 segundos e não se dão conta dos anos de trabalho que foram necessários. Nós passamos por tantos altos e baixos que é brutal.”
Gregg Troy, seu treinador na Universidade da Flórida, acompanhou essa época. Foi ele o responsável por lapidar a cabeça, a técnica e conter os lamentos do pupilo.
“Caeleb é um tremendo talento. Hábil, competitivo e receptivo. Embora seja um pouco frágil para aguentar os treinos, desafia tudo o lhe propõem”, comentou o técnico.
Troy disse que a desmotivação de Dressel há três anos fez parte de sua maturação.
Também gosta de dizer que quando o atleta chegou à universidade, conseguia realizar um salto vertical de 0,8 m e, agora, já supera o 1 m. “Hoje, ele é o pacote completo.”
“Se eu puder me tornar inspiração para alguém, terá valido a pena. A trajetória no esporte não diz respeito só a medalhas”, disse Dressel.
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PAULO ROBERTO CONDE DE SÃO PAULO
Gabriel Bouys/AFP
Fonte Folha de São Paulo