Djan Madruga, um dos maiores nomes da natação de fundo do Brasil é o entrevistado do Estrelas do Esporte

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Quem diria que uma semi-tragédia daria início a uma carreira vitoriosa que culminaria em uma medalha olímpica. A história que poderia ter sido totalmente diferente é de um dos nadadores mais vitoriosos da natação brasileira e que, em um certo momento da história, era considerado o mais completo da modalidade. Djan Madruga, hoje com 59 anos é o segundo entrevistado do quadro Estrelas do Esporte.
Veja o bate-papo com o medalhista olímpico de 1980:

– Você começou a nadar aos seis anos de idade, após quase ter morrido afogado. Como foi esse acidente e como você acha que ele foi determinante para você chegar aonde chegou?
Essa quase tragédia foi fundamental na minha carreira, pois minha família ficou muito preocupada com o meu afogamento e decidiu que eu tinha que aprender a nadar para poder me defender. Então, me matricularam em uma escola de iniciação de natação da UFRJ na Urca, depois, identificaram que eu levava jeito para o esporte e me encaminharam para o Botafogo, onde eu comecei a competir aos 7 anos. Dez anos depois, estava em uma Olimpíada, não é fantástico?

– O que você lembra em detalhes e a quem credita esse início na natação?
O meu início foi muito prazeroso. Eu me diverti muito com a natação e, quando me encaminharam para o Botafogo, logo no meu primeiro ano eu já comecei a participar de competições internas. Ganhei minha primeira medalhinha, depois participei de competições federadas e cheguei a algumas medalhas, inclusive ganhando o campeonato Estadual de petizes. Foi aí que percebi que eu podia ter sucesso nessa carreira esportiva e decidi me dedicar para valer à natação.

– Com apenas 15 anos você já começou a se destacar internacionalmente. Foi ali que você começou a levar a natação como profissão?
Na verdade, foi um pouco antes. Com 12 anos, tive uma frustração muito grande quando eu nadava no Botafogo, pois eu perdi um Campeonato Sul-Americano infanto-juvenil, fui o primeiro reserva e isso criou uma frustração grande. Decidi, então, mudar de clube, fui para o Fluminense e lá encontrei aquele que seria o meu grande treinador: Denir de Freitas, que era um especialista em treinamento de fundo, uma modalidade que eu levava mais jeito pela minha característica física e, nos dois anos seguintes, eu me dediquei muito para as provas mais longas. Aos 15 anos, bati meu primeiro recorde sul-americano de 1.500 metros e, nesse mesmo ano, bati também os 800m e os 400m. Com isso, cheguei na Olimpíada dois anos depois com apenas 17, naquela época a gente ia para as Olimpíadas bem mais cedo do que hoje em dia e terminava a carreira esportiva também bem mais cedo, você com 25 anos já estava basicamente velho para o esporte.

– Você foi detentor de vários recordes, era considerado um nadador completo por nadar em várias distâncias. Qual era a sua preferida? Por que?
Com base na minha fisiologia, posso dizer que eu tenho uma constituição bem dividida de fibras tanto vermelhas de fundo, quanto brancas de explosão, então eu nadava bem dos 1500 até os 100. Tanto que acabei, aos 21 anos, sendo recordista sul-americano de todas as distâncias do nado livre, de medley, de costas e até brasileiro dos 200 borboleta, mas a prova que eu mais gostava mesmo era a dos 800 metros livre, que não era uma prova Olímpica, nem de mundiais. Nesta prova, eu acredito que tenha conseguido o melhor resultado na minha carreira que foram os 7:59.85, em 1980, sendo o primeiro homem nas Américas abaixo dos oito minutos superando inclusive os americanos que ainda não tinham nadado abaixo dos 8 minutos até 1980.

– O que você lembra em detalhes do dia da medalha olímpica?
Sem dúvida, é uma lembrança que a gente nunca vai esquecer, mas, quando falo disso, tenho que ressaltar que, sem os meus companheiros do revezamento 4 x 200m, essa medalha não teria saído. Tenho sempre que agradecer muito ao Jorge Fernandes, Marcuss Mattioli e ao Cyro Delgado que foram meus companheiros nesse momento memorável das nossas vidas.

– Imagino que o dia da medalha olímpica seja um dos mais especiais da sua vida. Como você classificaria em uma palavra?
Foi um momento de realização profunda. Me Lembro até hoje de nós quatro no pódio e a bandeira do Brasil sendo hasteada. Então esse é um momento inesquecível, o coroamento de um objetivo de vida , pois quando comecei a me ver como nadador queria ir a uma Olimpíada, depois que fui a minha primeira, em Montreal, e cheguei à final passeia acreditar muito que uma medalha olímpica era possível e tê-la conseguido quatro anos depois, em Moscou, foi uma enorme realização. O meu momento divino na Terra. É preciso lembrar que, naquela época, as coisas eram muito difíceis. O Brasil só tinha na sua história 19 medalhas olímpicas entre todos os esportes, ou seja, a nossa foi a vigésima medalha da história do esporte brasileiro em Jogos Olímpicos, realmente foi um tremendo feito para a época.

– Durante a sua carreira, você foi quebrando vários recordes. Como manter-se motivado a quebrar recordes atrás de recordes?
Eu me divertia muito. Adorava competir, ganhar e nadava várias provas e distâncias, pois como eu tinha essa habilidade de nadar basicamente todos os estilos e distâncias, o único que eu não andava muito bem era o peito, mas isso não me impedia de nadar um bom medley, tanto que fui quinto lugar em uma Olimpíada nos 400 medley e ganhei o nacional americano nessa distância também, mas a verdade é que a natação naquela época era coisa mais importante para mim e eu me realizava com ela, foram bons dez anos da minha vida dedicados a seleção brasileira e a bater recordes.

– Depois de algum tempo, surge um novo talento de fundo no Brasil. O que você acha do Guilherme Costa? Qual conselho daria para ele chegar aonde você chegou?
O Guilherme eu acompanho a carreira dele desde pequeno, pois meu filho nadava também na equipe dele mais ou menos na mesma época com o treinador Karfu, lá no Parque Aquático Maria Lenk e o que eu tenho a dizer para ele é primeiro parabenizá-lo pelo feito, pois entrou para história como primeiro homem abaixo 15 minutos no Brasil. Agora, tem que focar em corrigir erros do meio de prova, treinar muito, treinar muito e treinar muito e não descansar sobre louros e tentar levar até o mais longe que puder e tenho certeza que ele vai ter muito sucesso na carreira dele, porque é um jovem que gosta de treinar duro, não tem medo de sentir dor o que é a característica de um grande fundista.

– Quais são seus planos para os próximos anos?
Eu esportivamente continuo competindo como master e entrei nesse ano na faixa dos 60+ e esse momento é muito interessante, porque a gente no início da faixa fica apto para ganhar algumas competições internacionais e bater quem sabe alguns recordes mundiais e eu estou focado esse ano em participar dos Jogos Pan-americanos Master em julho e no ano que vem no Mundial da Fina. Profissionalmente, tenho uma academia própria de natação e ginástica no RJ, que acabou de completar 20 anos, estou também envolvido numa empreitada muito grande que é a realização dos Jogos Pan-americanos Master de todos os esportes no Rio de Janeiro em 2020. Estou também na CBDA ajudando no projeto de bolsas com a Universidade Estácio para atletas de todos os esportes aquáticos, um projeto que eu iniciei há quatro anos e que hoje beneficia cerca de 80 atletas e colaboradores que conseguem cursar o ensino superior com bolsa integral. Por fim, estou envolvido com capacitação de treinadores de natação, pois trouxe, em 2014, o curso da ASCA para o Brasil e já certificamos 140 treinadores de todo o Brasil desde então.

 

Departamento de Comunicação – CBDA