Entrevista com Guilherme Maia Kabbach nadador surdo by Signumweb

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Formado em Educação Física e nadador surdo, Guilherme Maia, natural de Santos – SP, conquistou a medalha de ouro na Surdolimpíada de 2017, realizada na Turquia. O atleta de 29 anos também fez história ao vencer a prova dos 200 m nado livre com novo recorde mundial: 1min52s55. Ele foi o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha de ouro em uma Surdolimpíada! No total das competições que participou até hoje, Guilherme conta com 59 medalhas, dois recordes mundiais e um recorde olímpico. Conversamos o nadador, com a ajuda de um intérprete de LIBRAS, e trazemos a entrevista na íntegra. Confira!

1- Conte um pouco sobre a sua vida. Como ficou surdo e como foram as coisas na escola?
Fizemos vários exames para saber. Fomos até os EUA , mas nada foi descoberto. Em 10% dos casos, não se descobre!
Tenho deficiência auditiva bilateral profunda. Estudei em escolas de ouvintes e especializadas no ensino fundamental e médio. E depois a faculdade. É muito difícil! Pois os professores esquecem de se dirigir a nós. Não tive intérpretes. Mas faço leitura labial muito bem… Quando consigo ver os lábios. Minha mãe que me ensinou.

2- Os surdos não participam das Paralimpíadas? Por quê? O que são as Surdolimpíadas?
Não! Infelizmente não! O Comitê Internacional saiu dessa competição desde 1924. Criou as Surdolimpíadas e os outros campeonatos só para surdos. Sou o primeiro nadador surdo a ganhar medalha e também ouro e recordes para o Brasil.

3- Fale mais sobre as medalhas que você conquistou.
– Tricampeão santista – 2008 a 2011 (ouvintes);
– Bicampeão paulista – 2008 e 2011 (ouvintes);
– Mundial de surdos em Coimbra-Portugal – 2011, 3 medalhas (2 pratas e 1 bronze);
– Pan Americano de surdos – 2012, 9 medalhas (4 ouros, 1 prata, 4 bronzes). Obs.: nadei com lesão no ligamento do joelho;
– Deaflympics Sofia-Bulgária – 2013, 3 medalhas (2 bronzes e 1 prata);
– Sul Americano Caxias do Sul – 2014, 15 medalhas (12 ouros e 3 bronzes);
– Mundial de surdos em San Antonio-Texas – 2015, 3 medalhas (2 pratas e 1 bronze);
– Deaflymcpis Samsun-Turquia – 2017, 2 medalhas (1 ouro e 1 bronze). Sou recordista do sul americano, pan americano, mundial e olímpico!

4- Quais as modalidades de esportes em que o Brasil compete?
Em todos os esportes!

5- Há reconhecimento desses atletas? Todos recebem algum auxílio, como o bolsa atleta por exemplo?
Existe! Mas não como um atleta ouvinte ou paralímpico. O reconhecimento é bem menor. Precisamos recorrer a rifas e ajudas de amigos. A Nita Alimentos/Moinho Paulista têm me ajudado desde 2013, quando fui para a segunda participação na Surdolimpíada da Bulgária. Gostaria que a imprensa escrita e a TV divulgassem muito mais e também fizessem um apelo para as grandes e pequenas empresas industriais… Para que nos patrocinassem com ajuda financeira, possibilitando investir mais nos equipamentos, nos profissionais que nos cercam e em n[os mesmos para dedicação total aos treinos.

6- Como é a comunicação com outros atletas e toda a equipe?
A comunicação é em LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais. Ou oralizada para alguns.

7- Quais são os seus projetos para o futuro?
2019 – Mundial e 2021 – Deaflympics. Nessas duas competições, quero subir ao pódio e trazer medalhas e mais recordes para nós! Bater o maior número de medalhas na categoria SURDO. Além de divulgar para todo o Brasil o nosso potencial no esporte. Convocar e treinar crianças, jovens e adultos (até uma certa idade para cada esporte) para juntos formarmos uma equipe digna de ser representada pelo nosso país. Um revezamento na natação (risos), pois só tem eu! Com a mídia divulgando e as famílias incentivando junto com o apoio das indústrias e empresas fortes, teremos condições de formar uma equipe tão espetacular como os nossos paratletas. Minha maior meta é mostrar à comunidade surda que somos iguais ou melhores que os americanos, russos e até chineses. Surdo também tem garra no sangue!

8- Como você percebe a acessibilidade aos surdos em nosso Brasil?
Muito fraca! Temos que recorrer à ajuda de familiares e amigos muitas vezes. Na escola, somos chamados de “mudinho”, o que me revolta muito até hoje.

9- A SignumWeb é uma plataforma de videoconferência desenvolvida por um surdo. O que você achou dessa ferramenta de acessibilidade?
Achei a SignumWeb uma ótima ideia! Dá para colocar toda comunidade a par do que acontece no mundo e aqui conosco.

10- Que mensagem você gostaria de deixar para os surdos brasileiros?
Ser surdo não é nada fácil! Mas também não é tão difícil. Se tivermos uma base familiar, como tive com minha mãe e minha irmã, a gente consegue chegar no ALTO DO PÓDIO! Quero agradecer a minha mãe por tudo que fez, pelo que tentou fazer e por tudo que faz até hoje por mim.

 

Imagem: Cristiano Carvalho/CBDS

Fonte da matéria Acessibilidade comunicativa – SignumWeb
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Entrevista: Guilherme Maia Kabbach – nadador surdo