Leo de Deus: “O esporte como uma lição de vida” Braçada Perfeita por Giovana de Paula Negrinho

3 semanas ago 0

Um dos principais nadadores do mundo fala sobre a sua relação com o esporte e como faz para se manter em alto nível, técnica e psicologicamente.

Com duas olimpíadas no currículo, Leonardo Gomes de Deus, ou simplesmente Leo de Deus, bicampeão Pan-Americano nos 200m borboleta, é um dos melhores nadadores do mundo na atualidade. Versátil, o sul-mato-grossense compete algumas das provas mais difíceis da natação, entre elas: 100 e 200m borboleta; 100 e 200m costas; 200 e 400m livre.
Aos 27 anos, é dono de um carisma inconfundível e está sempre em contato com os fãs, seja pessoalmente ou através das suas redes sociais.
Nossa coluna Braçada Perfeita conversou com ele para conhecer um pouco mais dos detalhes que compõem o atleta e quais fatores da sua vida esportiva ele carrega para sua vida pessoal.
Acompanhem!

– Até que ponto sua origem, com seu pai militar, o influenciou na disciplina como atleta?
Por ele ser militar, sempre tivemos que nos mudar bastante, mas isso nunca foi uma dificuldade, pois o mais importante para mim sempre foi estar perto da família, e eles sempre me deram todo suporte para que independentemente de onde estivessem, eu conseguisse manter e melhorar meus resultados. Não via a mudança como uma coisa ruim e sim como um novo desafio na minha carreira.

– Você começou a nadar aos finais de semana, com sua mãe. Quais são as melhores lembranças deste período?
Sim, sempre fui uma criança muito agitada e com energia, nunca gostei muito de dormir, então sempre acordava cedo e acompanhava minha mãe aos fins de semana para nadar e depois ainda ia fazer outros esportes. Lembro que caíamos na água bem cedinho…umas 7 da manhã e olha que nem era atleta ainda, mas como nenhum de meus amigos estava acordado, nadava e esperava por eles.

– E esse apoio familiar o acompanha até hoje, com sua irmã, sua mãe e seu pai como parte do time “Leo de Deus”. Eles foram o grande suporte para você em sua carreira e amenizaram as dificuldades da vida de um atleta de alto rendimento?
COM CERTEZA, minha família sempre buscou me preservar e me blindar das dificuldades relacionadas à infraestrutura e questões financeiras, o resto eu me virava na água. Lógico que por ver todo esforço da minha família para com a minha carreira eu sempre me coloquei muita pressão. Pensava: “eu não posso dar errado, tenho que continuar trabalhando, não posso falhar com a minha família e não merecemos tudo que passamos juntos”…mas mal sabia que já tínhamos dado certo.

– Você é um nadador que consegue unir a mesma eficiência em diferentes estilos, costas, borboleta, crawl. Conte detalhes do seu treinamento para obter essa mesma qualidade em todos os nados.
Um caminho para o alto rendimento no esporte, ainda mais para um atleta que não é o mais forte nem o mais alto, sempre foi a qualidade técnica misturada com perseverança a cada sessão de treinamento diária. Desde quando eu era criança, por meu pai ser aviador e conhecer muito de aerodinâmica, ele sempre me fez pensar em ser mais rápido utilizando menos combustível e sendo mais eficiente para isso tinha que ser o mais técnico de todos os atletas na minha idade. Trabalhei muito e desenvolvi uma facilidade nesses estilos depois de MUITO trabalho diário, de assistir vídeos, praticar em frente ao espelho e escutar meu pai durante as refeições me ensinado e rabiscando a parede da cozinha.

Leonardo de Deus. Trofeu Daltely Guimaraes na Unisul, Campeonato Brasileiro Senior. 16 de dezembro de 2015, Palhoca, SC, Brasil. Foto: Satiro Sodré/ SSPress/CBDA

– Agora um ‘parênteses’, Leo…para nós, que começamos a nadar mais tardiamente, nos encanta o nado borboleta, pela sua dificuldade técnica de execução e beleza plástica do nado. Você o considera o mais difícil também?
Sim, o borboleta é o nado mas difícil e eu digo o porquê. Temos que tirar os dois braços ao mesmo tempo da água e sincronizar cabeça, quadril e pernas para que consiga fazer o movimento e tenha capacidade de nadar o estilo borboleta. Técnica, sincronismo e força, esses são os pontos que um nadador tem que ter para nadar o borboleta.

– Jogos Sulamericanos, PanPacífico, vários mundiais, Jogos Olímpicos…diferentes competições que mostram sua evolução como atleta. Como foi essa evolução como atleta e quais são as principais lições que a sua carreira tem influenciado diretamente em sua vida pessoal?
O esporte é uma lição de vida, você aprende a cada derrota e vitória e isso te faz mais forte e ensina a você superar os outros desafios da vida. Logo, o esporte e tudo que vivi nele, servem de aprendizado para moldar quem sou hoje como atleta e pessoa.

– Leo, no final do ano passado, o comentarista Alex Pussieldi publicou que “…pela regularidade e potencial, Leo de Deus é um nadador muito maior do que tem sido. Vai chegar a hora em que vai conseguir ajustar a sua prova e fazer o seu melhor na hora certa. Ele mesmo declarou este ano: “Estou cansado de nadar bem na hora errada”. O que o Leo quer é não ser mais o Leo de Maria Lenk, o Leo de Finkel, o Leo de Open. O que o Leo quer é ser o Leo de Mundial, o Leo de Olimpíada, e quem sabe, porque não, o Leo de Ouro.” Como você analisa essa fase e como está sua evolução para este ano?
Como falei, durante nossas vidas estamos em um eterno aprendizado e na minha carreira não é diferente. Vivi muita coisa, mas com o passar dos anos, não conseguia fazer o meu melhor na hora certa. Então, tive a humildade para reconhecer que precisava de ajuda psicológica para melhorar a minha cabeça durante essas grandes competições e estar sendo muito positivo para mim. Esse vai ser um ano para analisar minha postura em grandes competições e melhorar, pois em 2019 e 2020 temos Mundial e Olimpíada, respectivamente.

– O que projeta para sua carreira como metas pessoais?
Tenho muitas metas pessoais e não dá para colocá-las aqui pois precisaria de um livro. Mas se fosse pra escolher uma, seria fomentar o esporte, a prática da natação e mostrar que através da minha história e experiência dentro do esporte, eu consiga incentivar e motivar muitos outros atletas a serem não campeões de medalhas e recordes mas sim vencedores de seus objetivos e isso serve para todas as idades, para que as pessoa busquem ser os vencedores de sua vida.

– Leo, você costuma também participar de algumas competições em águas abertas. Este também pode ser um futuro para você? O que significa nadar no mar para você?
Sempre gostei de competir, confesso que as maratonas aquáticas são bem diferentes de piscina e que no começo me senti um peixe fora d’água ou melhor um peixe de água doce no mar, mas que, assim como a natureza, sei me adaptar. Quem sabe mais para frente experimente novos desafios. Nadar no mar para mim é a mesma coisa, tirando que não temos raias e não conseguimos ver o fundo (confesso que isso é o mais agoniante).

 

– Como foi o início do Instituto Leonardo de Deus? Conte-nos um pouco mais sobre este trabalho. Este tem sido um grande orgulho e satisfação para você atualmente?
O Instituto se iniciou a partir do momento em que vi uma necessidade de dar algo a mais para o esporte do que apenas os meus títulos, retribuir o que a natação vez e vem fazendo na minha vida para os outros. Hoje o Instituto, por falta de apoiadores, está apenas com um projeto que é o encontro de técnicos que acontece uma vez por ano e tem o intuito de capitalizar e promover a troca de experiência entre profissionais e estudantes de Educação Física e profissionais de natação. Temos outros projetos a caminho mas ainda estamos trabalhando para isso. Confesso a você que treinar, estudar e ainda tentar estar 100% envolvido é difícil. Ainda não estou satisfeito pois aprendemos muito com Instituto e ‘quebramos a cabeça’ um pouco para fazer acontecer. Estamos no caminho para um dia sermos grandes e conseguir, de fato, difundir a prática esportiva e deixar nossa mensagem e legado para o esporte.

– Excelentes atletas e professores de Educação Física costumam dizer que “quanto mais treinado, menos treinável é o atleta”. E a natação é um dos esportes mais difíceis tecnicamente e quanto se chega em um nível como o seu, acredito que seja ainda mais difícil essa evolução. Como é feita essa análise em seu dia a dia pela sua comissão técnica?
Sou avaliado e acompanhado semanalmente por excelentes profissionais que, através de exames e trabalhos dentro e fora d’água, me fazem continuar evoluindo com passar dos anos. (Técnico, Auxiliar técnico, Médico, Nutricionista, Psicólogo, Preparador físico, Fisioterapeuta, Biomecânico, etc).

– Leo, qual é a sua ‘braçada perfeita’?
Não é ‘qual’ mas sim ‘quando’, e será a última que eu der na minha vida, pois olharei pra trás e verei que tudo que passei valeu a pena.

– Como você definiria a natação como fator agregador de físico, alma e conquistas?
Com uma palavra: TRABALHO.

– O que vem à sua mente quando pensa em seu principal objetivo a ser alcançado?
“Ferrou! Tenho que ser mais rápido“.

– Para você, qual é o diferencial entre o esporte amador e o profissional?
Esporte profissional é aquele que você tem a obrigação de fazer, treinar se dedicar todos os dias como um trabalho normal para que através do seu resultado você consiga sobreviver e construir uma estrutura sólida na sua vida. Esporte amador é aquele que você pratica sem que o seu resultado seja avaliado ou representativo para a pessoa viver daquilo que está fazendo.

– Cite uma lembrança marcante.
Quando ‘queimei’ a largada pela primeira vez… nunca vou esquecer! Primeira competição em BSB 100borboleta, isso foi muito marcante…queria sumir de vergonha.

– Porque nadar é possível para todos?
Nós, seres humanos, não fomos feitos para nadar mas somos teimosos e independentemente da idade ou fisiologia somos capazes de aprender. Para isso, temos que começar.

– Liste as melhores marcas na sua carreira
200borboleta: 1.54.9 , 200costas: 1.57.0 ,
100borboleta: 52.7 , 100costas: 54.4 , 200livre: 1.48.9 , 400livre: 4.49.6 , 1500livre: 15.22.

Fotos: Satiro Sodré SSPress & CBDA