Enchentes Anunciadas: a Crise Não é Natural, é Resultado da Inércia dos Gestores Públicos

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As enchentes recorrentes em Porto Alegre estão longe de serem eventos excepcionais ou imprevisíveis. Elas são consequência direta de decisões urbanas reiteradas e da omissão dos gestores públicos, que historicamente trataram o Lago Guaíba como um simples obstáculo técnico a ser contido, e não como um sistema ambiental vivo que exige planejamento contínuo, investimento e governança qualificada.

A ausência de uma visão integrada entre cidade e bacia hidrográfica revela um padrão de baixa prioridade política. Planejar o território de forma desconectada da dinâmica das águas produziu riscos conhecidos, amplamente documentados e ignorados ao longo do tempo. Medidas como canalização excessiva, impermeabilização do solo e ocupação de fundos de vale não resolveram o problema — apenas o empurraram para áreas mais vulneráveis, penalizando populações com menor capacidade de resposta, enquanto o poder público posterga soluções estruturais.

Apesar da existência de amplo acúmulo técnico no Brasil e no exterior, os gestores seguem lentos na adoção de um novo paradigma. Falta empenho para integrar urbanismo, soluções baseadas na natureza e política habitacional de forma consistente. A governança metropolitana permanece fragmentada, o controle do espraiamento urbano é insuficiente e as perdas evitáveis continuam sendo tratadas como fatalidades, e não como falhas de gestão.

Mesmo iniciativas frequentemente anunciadas evidenciam mais discurso do que ação concreta:

  • Revitalização e lazer: Embora se reconheça a importância da apropriação da orla, da requalificação dos espaços públicos, do aumento da arborização e da despoluição do Arroio Dilúvio, os avanços são pontuais e lentos, sem escala compatível com a gravidade do problema.
  • Gestão ambiental e zoneamento: O zoneamento do Guaíba, responsabilidade do governo estadual, arrasta-se há anos. Debates técnicos sobre sua classificação como rio ou lago — que definiriam APPs de 500 ou 30 metros — seguem sem decisão clara, refletindo a falta de liderança e de coragem política para enfrentar interesses conflitantes.
  • Sustentabilidade hidroviária: Propostas como o desassoreamento do lago para melhorar a navegação e reduzir inundações permanecem no campo das intenções. A incorporação efetiva do tema à política de sustentabilidade e a regulamentação dos usos náuticos avançam de forma tímida e desarticulada.
  • Parcerias público-privadas (PPPs): Embora frequentemente citadas como solução, as PPPs ainda carecem de diretrizes claras, transparência e alinhamento com objetivos ambientais e sociais, sendo utilizadas mais como retórica do que como instrumento estratégico.

Em síntese, o que se observa não é falta de conhecimento técnico, mas falta de empenho político, coordenação institucional e compromisso de longo prazo dos gestores. Enquanto isso, as enchentes seguem se repetindo, transformadas em tragédias anunciadas pela inércia do poder público.