CAUSOS DE UMA VIDA A NADO “Travessia da Ilha dos Lobos”
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Histórias que a água não levou
Nota do autor: Todos os nomes, apelidos e personagens mencionados nesta obra são fruto da minha imaginação e não correspondem necessariamente a pessoas ou fatos reais. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Ou talvez não… hehehe.
Aquele dia em que até o “edifício verde” quase virou ponto de referência internacional
A Travessia da Ilha dos Lobos acontecia anualmente durante o verão escaldante do Rio Grande do Sul, tendo como cenário a belíssima Praia de Torres, no litoral norte gaúcho.
Naquela época, a prova era organizada e supervisionada pelo professor Wilson Mattos, árbitro que mais tarde se aposentaria da FINA, hoje World Aquatics.
Mas o professor Wilson não era um árbitro qualquer.
Wilson era juiz raiz.
Para ele, se tinha água, era para nadar. Se tinha vento, nadava contra o vento. Se tinha chuva, melhor ainda. E se o mar estava daquele jeito que fazia qualquer pessoa sensata pensar duas vezes antes de entrar, para ele aquilo provavelmente era apenas uma excelente oportunidade para melhorar a experiência.
Tempo ruim simplesmente não existia.
Naquele tempo, também não havia espaço para muito “mimimi”. Segurança e organização eram importantes, evidentemente, mas a tecnologia ainda não havia tomado conta das provas de águas abertas como aconteceria anos depois.
Nada de GPS no pulso.
Nada de aplicativo mostrando a rota.
Nada de uma sequência de grandes boias coloridas indicando exatamente por onde deveríamos passar.
Nós éramos colocados em um catamarã e levados para próximo da Ilha dos Lobos, a única ilha costeira natural do Rio Grande do Sul.
A ilha fica a aproximadamente 1,8 a 2,7 quilômetros da costa de Torres e é um importante refúgio ecológico federal, conhecido por receber leões-marinhos e lobos-marinhos durante suas rotas migratórias.
E lá fomos nós.
Eu estava particularmente nervoso.
Era a minha primeira travessia em mar aberto.
E, como se a estreia no oceano já não fosse suficientemente desafiadora, minha primeira experiência anterior em águas abertas havia acontecido durante um temporal em Tapes.
Ou seja: aparentemente, eu tinha decidido começar minha carreira nas águas abertas escolhendo sempre as condições mais tranquilas possíveis.
Chegamos próximos à ilha.
O professor Wilson tomou sua posição e começou a transmitir as instruções finais.
Prestei atenção em cada palavra.
Afinal, estávamos no meio do mar e, naquele tempo, orientação era quase uma arte.
Wilson explicou:
— Vocês vão nadar em direção à praia.
Até aí, tudo bem.
Então levantei a mão e, na minha inocência de estreante, perguntei:
— Mas em que parte da praia?
Ele respondeu, com a tranquilidade de quem estava mandando alguém atravessar uma piscina:
— No areial.
Eu pensei: ótimo… agora ficou fácil.
Mas ainda faltava uma informação.
Perguntei novamente:
— E em que direção?
Wilson, sem demonstrar a menor preocupação, respondeu:
— Em direção ao edifício verde.
Aquilo me deixou ainda mais nervoso.
Olhei para a orla.
Torres tinha vários edifícios.
E, pelo que meus olhos conseguiam identificar, muitos deles pareciam verdes.
Então perguntei:
— Mas Wilson, quase todos os edifícios da orla são verdes!
Ele deu uma risada e explicou:
— É o mais alto.
Eu olhei novamente para a praia.
E pensei:
“Wilson, o problema é que, para mim, todos parecem ter a mesma altura!”
Mas já era tarde.
O professor Wilson havia se agarrado ao mastro de proa do catamarã.
Pegou a corneta de ar.
Preparou-se.
FUUUUUUUUUUU!
Largada!
E lá fomos nós.
Todos se atiraram naquela água fria do mar de Torres.
Eu e o professor Bigode entramos na água e, por alguns segundos, ficamos praticamente incrédulos.
Olhei para um lado.
Olhei para o outro.
Olhei para a praia.
Olhei novamente para o mar.
E provavelmente o Bigode estava pensando exatamente a mesma coisa que eu:
“Tá… e agora, para onde vamos?”
No meio daquela confusão inicial, acabamos nos separando.
Eu fui parar junto de um grupo de nadadores de um clube da região do Parque Moinhos de Vento.
Entre eles havia também um professor que, no dia a dia, usava uns óculos com lentes tão grossas que pareciam verdadeiras garrafas de vidro.
O homem não enxergava um palmo à frente do nariz.
Mas isso não parecia ser um problema para ele.
Pelo contrário.
Ele assumiu a liderança do grupo e começou a indicar a direção que deveríamos seguir.
Nadamos alguns minutos e começamos a perceber que aquela direção talvez não fosse exatamente a mais adequada.
Até que descobrimos o detalhe mais preocupante:
O professor estava determinado a nos levar para Santa Catarina!
Foi necessário algum esforço diplomático para convencê-lo de que talvez fosse melhor procurar o litoral gaúcho antes de iniciar uma travessia internacional.
Ainda bem que conseguimos demovê-lo.
Seguimos em direção à praia.
No caminho, eu carregava uma preocupação adicional: será que encontraríamos algum leão-marinho pelo caminho?
Afinal, estávamos justamente na região que servia de refúgio para esses animais.
Eu já imaginava a manchete:
“Nadador gaúcho abandona a prova para disputar território com leão-marinho.”
Felizmente, nada disso aconteceu.
A travessia seguiu dentro de uma certa normalidade.
Finalmente alcancei a praia.
Só havia um pequeno problema.
Eu havia chegado aproximadamente um quilômetro ao norte do pórtico de chegada.
Ou seja, tecnicamente eu havia encontrado o “areial”.
Quanto ao “edifício verde”, ainda tenho minhas dúvidas.
Saí da água e comecei a caminhar pela praia até encontrar a estrutura da chegada.
Mas havia outra história acontecendo naquele momento.
O Bigode havia desaparecido.
Terminamos a prova.
Passou algum tempo.
Uma hora.
Mais um pouco.
E nada de notícias do Bigode.
Quase duas horas depois do encerramento da prova, finalmente descobrimos o que havia acontecido.
Ele havia nadado em direção ao Morro das Furnas e precisou ser resgatado pelos salva-vidas.
Aquela tinha sido a primeira travessia do Bigode no mar.
E também foi a última.
Depois daquele episódio, nunca mais vimos o Bigode nadando no oceano.
Não sabemos exatamente o motivo.
Talvez tenha sido o susto de ver o Morro das Furnas tão de perto.
Ou, como dizem as más línguas — e aqui estou usando a expressão apenas no sentido figurado, hehehe — talvez tenha sido o famoso boca a boca dos salva-vidas depois do resgate.
Seja como for, cada um voltou para casa com sua própria história.
Eu voltei com uma certeza:
havia terminado minha primeira travessia em mar aberto.
Não exatamente no lugar onde deveria chegar.
Não exatamente seguindo a rota mais precisa.
E certamente não com a segurança de quem sabia perfeitamente para onde estava indo.
Mas cheguei.
E, olhando para trás, talvez tenha sido justamente aquela mistura de aventura, incerteza e improviso que tornou aquele dia inesquecível.
O Bigode provavelmente não concordaria comigo.
Mas tudo bem.
Cada nadador tem sua relação particular com o mar.
Eu, felizmente, fiz as pazes com ele.
E continuo até hoje me divertindo nas águas abertas.
Porque algumas histórias a gente esquece.
Outras ficam na memória para sempre.
E há aquelas que a água simplesmente não consegue levar.
Essa é uma delas.

