CAUSOS DE UMA VIDA A NADO “O Revezamento da Ressaca”
2 dias ago Comentários desativados em CAUSOS DE UMA VIDA A NADO “O Revezamento da Ressaca”
Histórias que a água não levou
Nota do autor: Todos os nomes, apelidos e personagens mencionados nesta obra são fruto da minha imaginação e não correspondem necessariamente a pessoas ou fatos reais. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Ou talvez não… hehehe.
- O Revezamento da Ressaca
Era dia 26 de setembro.
Além de ser sábado, dia de campeonato de natação Master na piscina da extinta Faculdade IPA, em Porto Alegre, havia outro pequeno detalhe: era o meu aniversário.
Eu nadava pela equipe da Natacenter e, como todo bom aniversário merece comemoração, depois da primeira etapa da competição fomos almoçar com alguns amigos.
Até aí, tudo absolutamente normal.
O problema começou quando eu e o Moreira resolvemos comemorar o meu aniversário com um pouco mais de entusiasmo do que o recomendado pelo regulamento da Federação.
O vinho estava bom.
Muito bom.
Talvez bom demais.
Depois do almoço, voltamos para o IPA para disputar a segunda etapa do campeonato.
Só havia um pequeno problema:
eu ainda estava nadando; o Moreira, aparentemente, já tinha encerrado a carreira naquele dia.
Quando cheguei ao clube, procurei pelo Moreira.
Nada.
Procurei de novo.
Nada.
Até que, no final da tarde, chegou a hora do revezamento 4 x 50 metros medley.
Eu estava escalado para nadar peito, na categoria 160+.
Terminei minha prova e comecei a subir a escada da piscina, tentando manter aquela dignidade que um nadador procura preservar depois de alguns quilômetros nadados e alguns cálices de vinho ingeridos.
Foi quando surgiu o professor Bigode.
Touca da Stillo na cabeça, cara de quem estava prestes a propor uma missão impossível e uma urgência que não combinava nem um pouco com um campeonato Master.
— Francismar! Pelo amor de Deus! Você precisa nadar no lugar do Moreira!
Olhei para ele.
— Como assim?
— Não consegui acordar o Moreira!
Naquele momento, tudo ficou claro.
O homem não estava simplesmente descansando.
O Moreira estava em modo economia de energia.
— Mas, Bigode, isso vai dar problema!
Ele respondeu, com a tranquilidade de quem não estava prestes a cometer nenhuma irregularidade esportiva:
— Vai dar problema…
Fez uma pausa.
Olhou para os lados.
E completou:
— Mas nessa confusão ninguém vai notar!
É importante esclarecer que, naquele momento, eu também não estava exatamente em condições de exigir um parecer jurídico.
Então pensei:
“É meu aniversário mesmo…”
E fui.
Nadei.
Por outra equipe.
Assim, naquele dia, consegui uma façanha que poucos nadadores podem contar:
conquistei duas medalhas em um único campeonato, uma de ouro e outra de prata, defendendo duas equipes diferentes.
Um verdadeiro exemplo de versatilidade esportiva.
Ou de falta de fiscalização.
Até hoje não decidi.
Mas a história ainda estava longe de terminar.
Quando o meu técnico da Natacenter, o Zoinho, descobriu que eu havia nadado por outra equipe, ficou indignado.
Muito indignado.
O suficiente para querer discutir seriamente com o Bigode.
E aí aconteceu uma cena que, sinceramente, merecia ter sido filmada.
De um lado, Zoinho querendo acertar as contas com Bigode.
Do outro, Bigode tentando explicar que “ninguém iria notar”.
E no meio daquele entrevero estavam eu e o Moreira.
Sim.
O Moreira havia acordado.
E, apesar de ainda estar mais para lá do que para cá, ele e eu tivemos que apartar a discussão.
Tudo isso acontecendo no meio dos revezamentos seguintes, enquanto o campeonato continuava normalmente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
No final, ninguém brigou.
Ninguém foi expulso.
Ninguém perdeu a medalha.
E eu terminei o dia com duas medalhas, duas equipes, um aniversário e uma história que nunca mais saiu da memória.
Talvez eu não tenha sido exatamente o atleta mais disciplinado daquele campeonato.
Mas uma coisa posso garantir:
foi um aniversário inesquecível.
E, afinal de contas, naquele dia eu aprendi uma importante lição da natação Master:
na piscina, você precisa saber nadar.
Fora dela, precisa saber com quem almoçar.
E, principalmente…
precisa saber a hora de parar de beber vinho.
Mas isso, obviamente, eu só fui descobrir depois.

