CAUSOS DE UMA VIDA A NADO “O Vivente Está Ótimo”

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Histórias que a água não levou

Nota do autor: Todos os nomes, apelidos e personagens mencionados nesta obra são fruto da minha imaginação e não correspondem necessariamente a pessoas ou fatos reais. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Ou talvez não… hehehe.

  1. O Vivente Está Ótimo!

Minha primeira travessia de natação em águas abertas aconteceu em Tapes, há muitos e muitos anos. E, como toda boa história que começa com uma certa dose de inocência, o tempo estava programando um temporal daqueles.

Mas havia um detalhe: o árbitro da prova era o professor Wilson Mattos. E o professor Wilson era daqueles juízes raiz. Para ele, se tinha água, era para nadar. Se tinha vento, nadava contra o vento. Se tinha chuva, melhor ainda. Tempo ruim, para ele, simplesmente não existia.

A prova tinha 3 quilômetros. Naquela época, não existia essa modernidade de ficar nadando bonitinho, paralelo à margem. Nada disso! Eram 1.500 metros lagoa adentro, em direção ao Pontal de Tapes, contornava a boia e voltava.

Larguei cheio de entusiasmo.

Eu, como sempre, era um nadador contemplativo. Enquanto alguns pareciam estar disputando uma final olímpica, eu ia no meu ritmo: velocidade de Fusca 1.300, ano 1972, em subida de serra.

Só que, naquela travessia, o Fusca acabou encontrando a tempestade.

Quando cheguei à boia de contorno, lá no meio da Lagoa, o céu resolveu desabar. Vento, chuva, ondas… aquilo virou um verdadeiro liquidificador.

Pensei comigo:

— Primeira prova de águas abertas e já deu merda!

Foi então que, no meio daquele caos, apareceu perto de mim um bote com o professor Wilson Mattos e dois bombeiros.

O professor olhou para mim e perguntou:

— Quer ser recolhido?

Na minha inocência, pensei:

“É agora! Graças a Deus!”

Preparei-me para gritar, com toda a força dos meus pulmões:

— ME TIRA DAQUI!

E, simultaneamente, levantei os dois polegares, confirmando que queria ser resgatado.

Só que havia um pequeno problema.

Na hora de gritar, veio uma onda.

Abri a boca…

E engoli água!

Naquele momento, com a Lagoa funcionando como um liquidificador, não saiu uma palavra sequer. Só os meus dois polegares permaneceram heroicamente fora d’água.

O professor Wilson olhou para mim, viu os dois polegares para cima e interpretou aquilo da maneira mais otimista possível.

Virou para o piloto do bote e gritou:

— O vivente está ótimo! Vamos para outro salvamento!

E foram embora.

Fiquei ali, sozinho, no meio da Lagoa, pensando:

— Mas eu não estou ótimo, professor! Eu estou é pedindo socorro!

Só que não adiantava mais.

O bote já estava longe.

Naquele instante, só me restava uma alternativa: rezar.

Rezei uma Ave-Maria, respirei fundo e pensei:

— “Agora é comigo e com Deus.”

E lá fui eu, de volta para a praia.

Nadei, nadei, nadei… naquele meu tradicional ritmo de Fusca, agora movido a fé.

Para minha felicidade — e talvez também para minha surpresa — cheguei são e salvo.

Quando finalmente coloquei os pés na areia, tive aquela sensação maravilhosa de quem acaba de escapar de uma grande encrenca.

E foi justamente ali, naquele temporal, naquele verdadeiro liquidificador e depois de quase ser “resgatado” sem querer, que começou uma paixão que me acompanha até hoje:

a paixão pelas águas abertas.

Não foi exatamente um começo tranquilo.

Foi aos trancos e barrancos… literalmente!

E, pensando bem, talvez tenha sido a melhor maneira possível de começar.